Tuesday, November 28, 2006

Os ventos amarelos e os ventos mudos

Os amarelos são ventos longevos, chegando mesmo a haver quem diga que no deserto de Atacama existe um velho que nasceu antes dos primeiros homens. Porém, a maior parte dos ventos ainda vivos tem menos de dez mil anos, então sempre acompanharam as reviravolteantes historias desses seres tormentosos que somos nós.

Por isso, os ventos amarelos voam alto, mas raramente tanto que nos percam de vista, pois estão sempre atentos às variadas vozes que preenchem suas longas vidas com novidades incessantes de amores, de guerras e de mortes. Todas essas histórias eles a guardam como palavras em sua memória infinita.

Dizem mesmo que a biblioteca de Babel, descrita um dia por Borges, era a memória do velho vento do Atacama. E, como essa versão foi negada pelo próprio autor, talvez ela seja até verdadeira.

Os amarelos, como Borges ao fim da vida, são ventos da palavra, mais que da visão. Tanto que, para ver com acuidade, eles precisam descer da linha das nuvens para as copas das árvores, de onde por vezes chegam a falar com alguns humanos. Mas isso é raro, pois normalmente eles pairam muito acima de nós, com seus muitos ouvidos poderosos e atentos.

Uma das proezas de sua audição é que eles podem ouvir mil histórias ao mesmo tempo e compreender todas como se fossem uma só. Seus ouvidos polifônicos são legendários, mas os verdes contam que um velho amarelo do norte, ao visitar Paris pela primeira vez, enlouqueceu ao tentar ouvi-la toda de uma vez, como alguém que engole o mar. E, previsivelmente, completam a história dizendo que não deve ter sido o único, pois muitos são os amarelos tidos como excêntricos.

Há também quem ponha a culpa das suas estranhezas na proximidade do sol, que os amarelos até hoje chamam de pai. Todavia, por mais alto que voem, eles são ventos subnúbicos, pois quase sempre andam abaixo das linhas das nuvens, para que elas não lhes atrapalhem a pouca vista que eles têm do solo e de seus habitantes. Inclusive, eles freqüentemente pressionam as nuvens para cima, para ganhar um pouco mais de espaço, o que gera algumas cumulus nimbus de forma peculiar, que os cientistas em vão tentam enquadrar em suas teorias.

Acima das nuvens, outros são os ventos que costumam voar, mas eles parecem se interessar muito pouco pelo pulsar da vida, pois nunca falam com os humanos nem com ventos pouco longevos. Alguns, inclusive, andam sempre por cima dos mares de nuvens que circundam as grandes cordilheiras, descansando apenas nos pequenos cumes, ilhas de negror ou de neve que se elevam sobre o teto do mundo.

Porém, mais alto que todos os ventos supernúbicos, andam os cinco ventos mudos, alcunha equívoca que lhes foi dada por alguns azuis indignados por não terem obtido resposta após subirem tão alto para perguntar-lhes de uma velha história perdida da memória até mesmo dos amarelos mais antigos. Porém, o título foi tão bem recebido que todos os conhecem como mudos e muitos pensam que eles realmente o são. Reclamar disso, eles nunca o fizeram, ou pelo menos ninguém disso tem notícia, embora esse pareça mais um signo de indiferença que de aceitação.

De toda forma, em sua própria linguagem eles se chamam de ventos antigos (embora os azuis os chamassem simplesmente de velhos, antes da história da mudez). Eles nunca conheceram a morte nem ouvem dos animais senão os ecos que ouvem das histórias que os amarelos contam entre si. Voam eles tão alto que cada ser vivo se mistura ao ambiente, e dali apenas se apercebem dos grandes movimentos. Não vêem plantas, mas pastos e florestas. Não conhecem as pedras, mas as montanhas. Conversam em línguas secretas com cordilheiras e oceanos, que os azuis nem sabem que falam, pois conhecem apenas a as linguagens dos mares, dos lagos e das montanhas.

Assim, os mudos observam o mundo do lugar da distancia, em que o espaço de cada individuo se perde. Muito pouco são esses ventos, e lentamente eles andam... Os azuis (que nunca se cansam de inventar histórias sobre os antigos) espalharam a versão de que eles andam devagar porque são muito velhos. Porém, no fundo, eles andam assim porque seu tempo é outro. Eles vivem no tempo dos movimentos tectônicos, das grandes mudanças, dos continentes rompidos, das ilhas criadas e dos mares que viram desertos.

Apesar da velocidade pouca, eles são tão grandes que dentro de si carregam movimentos variados, e os ventos das alturas às vezes percebem os pensamentos dos ventos antigos, e nisso vêm signos de mudanças de grandes proporções.

Eles pensam lentamente, falam muito pouco, e observam agudamente os movimentos gigantescos que só se vê em grande escala. Acerca dos homens, só passaram a estar atentos quando recentemente perceberam que eles mudam muito a face do mundo com suas construções. Desde então, eles olham as grandes cidades e algumas construções monumentais com um especial cuidado, embora esse fenômeno seja tão recente que eles ainda nem sabem se vai durar tempo suficiente para alterar de verdade os movimentos da terra.

Com essa distância abissal, os homens terminaram confundindo os antigos com os deuses e se tentaram fazer ouvir pelos ventos velhos, que passam indiferentes pelo tempo, que não vêem cada homem em separado, e que nunca escutam seus chamados. Eles sequer perceberam os quantos sacrifícios que lhe foram feitos, e seguem seu caminho como sempre, vagarosos e infinitos como se deuses fossem de verdade.

Apenas cinco são os velhos, grandes como continentes, quase cegos (ao menos para as pequenas coisas), certamente muito surdos, mas poderosos como ninguém sequer imagina. Houve um tempo em que os próprios ventos os encaravam como divindades, especialmente os azuis, tão prontos a mistificar tudo o que encontram. E houve um tempo em que eles conversavam com alguns azuis especiais, chamados de mensageiros divinos.

Embora tudo isso tenha ocorrido antes dos próprios homens nascerem, as histórias dessa época se cristalizaram nas mitologias humanas, que construíram novas mitologias com os fragmentos que lhes chegaram pelos ventos mais próximos. O mito de Saturno devorando os filhos, por exemplo, deriva da verdadeira história da última grande guerra, que resultou no alheamento dos velhos em relação ao resto dos ventos, como uma forma de inventar um novo equilíbrio.

Grandes divindades do passado, eles estão por trás de várias das mistificações pentárias, especialmente com relação aos mundos maias, divididos em cinco partes, cada qual com a sua cor.

O grande vento Negro anda apenas pelas noites no hemisfério norte e ele é o que mais alto voa. Já se disse que ele era apaixonado pela lua, mas essa historia só e contada em velhas lendas quase perdidas mesmo na memória dos ventos amarelos.

O velho vento amarelo segue sempre o dia setentrional, e tira o seu nome da presença constante do sol.

O grande vento verde se estende como um anel em torno do equador.

O lento vento branco não se move de sobre a Antártida desde os tempos que se perderam na memória.

E o grande vento azul envolve o vento branco com um abraço que nenhum homem viu o começo.

Juntos, eles foram um manto invisível que envolve o mundo inteiro. Acima deles, nenhum vento jamais voou. Exceto, claro, pelo célebre Dédalo e por seu filho Ícaro, cuja paixão desmedida desencadeou a última guerra dos ventos, em que o mundo ganhou sua atual face.

Thursday, October 05, 2006

Canto de Inverno

Fiz do seu corpo a minha terra e poesia,
e você não me tomou.

Tomei-te em meus braços,
mas você não segurou a minha mão,
embora seguisse ao meu lado seu sorriso.

Eu me deitei em suas mãos,
e você me deixou escapar como areia entre os dedos,
os dedos que beijo enquanto passo
e que me olham inertes e lindos,
apesar de espantados com a própria paralisia.

O meu amor quis envolver-te em primavera.
Porém você não se abriu.

Permaneceste sentada na praia,
sem fugir nem buscar-me
enquanto os ventos que me trouxeram
se voltaram contra as velas do barco,
corroendo aos poucos a esperança
de que a tristeza não inundasse o amor.

Afinal, você virou-se de costas e partiu em silêncio,
e esse amor que me inspirou os mais belos sonhos,
que durou além das minhas forças,
e que me fez desejar o impossível,
frente ao vazio dos seus olhos
nada ele pode senão dizer adeus
a ti e a si mesmo.

Monday, September 18, 2006

Asas abertas

A folha tonta inspira
o vôo da borboleta
que imita a queda da folha ao vento
que sopra as velas do meu silêncio
que aspira a riso ser.

Ibirapuera, 18.9.2006 (primeiro dia de viagem)

Wednesday, May 24, 2006

Enciclopédia de Ventos: Os ventos verdes

Os ventos verdes são rápido, leves e preferem as terras úmidas em que podem se perfumar todo o ano com o aroma das folhas. Concentram-se, portanto, nas regiões tropicais e não vivem nos desertos de areia e de gelo, salvo algumas tribos isoladas [1].

Seu lugar de descanso é nos pés das cachoeiras, onde se banham nas nuvens formadas pela água a cair. É bom lembrar que os ventos deslizam sobre as águas e com elas se misturam apenas nas quedas onde a água se dissolve no ar. Sob os véus de noiva, há sempre ventos verdes a refrescar-se de suas corridas infindáveis. Muitos verdes têm especial predileção pelas matas, onde se divertem com as músicas farfalhantes do seu rastro nas folhas.

Ventos errantes e musicais, os verdes compõem sempre de improviso músicas que logo esquecem, embora se imprimam profundamente na memória poética de quem as escuta. Nubri, por exemplo, era um célebre vento verde do cerrado, que soprava sinfonias de folhas em volta da cachoeira do segredo. Suas múltiplas melodias criativas e irrepetíveis até hoje são lembradas na forma de sorriso por aqueles que tiveram a felicidade de as ouvir. Eu mesmo, porém, só sei dessas músicas a história, pois Nubri desfez-se antes de eu nascer.

Os ventos verdes vivem pouco e têm memória curta. Alguns dizem que isso é reflexo de seu amor pela velocidade, que os torna inconstantes e fugazes. Mas talvez isso seja apenas um preconceito dos longevos ventos amarelos, que olham os verdes sempre com um certo ar de superioridade [2]. Outros, porém, dizem o contrário: que é sua inconstância e fugacidade que os faz desejar tanto a rapidez do vôo e dos atos, vivendo cada momento como se fosse o último e nisso dispersando sua energia vital. Essa controvérsia, que atravessa gerações, continua em aberto.

De toda forma, nem mesmo os próprios verdes negam que eles conversam pouco e desordenadamente e são pouco confiáveis como mensageiros, pois são propensos a esquecer até mesmo suas próprias histórias, quanto mais as frases de outros. Costumam perder as palavras que lhe são confiadas entre as folhas das árvores, onde elas eventualmente encontram o ouvido de algum incauto passante e o assustam com uma voz que ele não sabe de onde vem e que fala línguas normalmente desconhecidas [3].

Mesmo quando não perdem as palavras, os verdes mudam de rumo tão constantemente (essa é sua única constância) que raramente chegam a entregar a mensagem ao seu destinatário, que eles logo esquecem quem é. Assim, metade das mensagens dos verdes se perde e a outra metade é entregue a esmo, para qualquer um que eles imaginem que elas se destinassem. Justamente por isso, algumas poucas mensagens terminam chegando ao destinatário original, mas sempre por obra do acaso.

Nesse acaso, talvez haja algo de mistério, pois certos homens vêem os verdes como os ventos do destino, acreditando que, se eles raramente entregam suas mensagens aos destinatários originais, não é por erro e sim por obra do destino, que os faz soprar as palavras sempre para quem deveria ouvi-las. “Quem define o destino das palavras é o Fado, não o poeta”, costumam dizer esses crentes. É claro que os ventos verdes nunca os levam a sério e brincam com suas palavras mais ainda do que fazem com as dos outros seres. Mas os crentes vêem nisso um sinal do destino e nada mais, o que os verdes (e não só eles) acham inacreditável e risível.

Os verdes são viajantes que andam sempre em bandos, que eles chamam de cardumes. Raramente os verdes passam acima da linha das nuvens, pois a ascensão lhes rouba rapidamente o calor e a vitalidade. Muito os incomoda a rarefação das grandes alturas, essa dissolução que lhes causa vertigens parecidas com as dos homens perante os abismos. Quando se expandem e esfriam, os verdes se sentem distantes de si e logo voltam ao solo em mergulhos acrobáticos. Por isso, eles sobem rápida e loucamente, tentando dissipar a energia que os ergue, para descerem novamente às folhas, às pedras e aos rios, que são os caminhos que eles gostam de seguir.

Assim são os verdes.

[1] Sobre elas, ver especialmente a história da errância de Filis, o vento verde que se apaixonou pelo belíssimo vento branco Strassen.

[2] Sobre isso, vide o verbete sobre os ventos amarelos.

[3] Sobre as palavras perdidas, vide a célebre história de Aon.

Bach

É bem conhecida a tese de que a música celeste de Bach foi inspirada em sua imensa capacidade de ouvir os ventos. Alguns espíritas chegam mesmo a sustentar que, na verdade, Bach viveu como vento em uma encarnação anterior. De nada disso há prova, embora todos saibam que ele era muito amigo de um vento azul chamado Jean e que foi o verdadeiro compositor de duas das suítes para violoncelo.

Ciranda dos Ventos

Há ventos que preferem os campos abertos, em que nada se opõe ao seu passar. Ventos que dançam nos planaltos e planícies, compondo com seu sopro melodias polifônicas de vozes que se entrelaçam em rodas ritmadas.

Muitos e muitos ventos tomam parte destes bailados, que são seus encontros e celebrações, mas estão neles mais amiúde os ventos jovens, que deslizam com frescor sobre a terra que os aquece e ganham com isso força para subir em térmicas que rodopiam rumo aos céus, elevando em seus braços nuvens, urubus e, por vezes, alguns homens alados.

Ventos vermelhos, azuis e verdes têm o costume de dançar assim. Os brancos bailam catala e trégua, mas apenas entre si. Já os amarelos nunca dançam, embora se divirtam em ver e ouvir do alto a ciranda dos ventos.

Saturday, October 08, 2005

Instruções pseudo-cortazarianas para colher amoras



Estenda o braço esquerdo lentamente e, com a doçura de quem toca um seio, vergue rumo ao chão o galho em que se aninha a fruta. Cuidado especial tenha com as folhas, nunca perdendo de vista que elas são a matéria com que se molda o fio de que se tece a seda. Sinta a tensão da madeira espalhar-se ao longo dos músculos e torne-se galho para evitar o limite em que a curva se transformaria em vão.

Firme os pés descalços sobre a terra granulosa, enquanto observa que do encontro das esferas negras saem pequenos cílios, cujo sentido só se pode imaginar porque não existe. Repare a forma irregular que encontra o equilíbrio tenso das esferas intumescidas ao ponto de quase não se conterem em si.

Cultive o desejo até que ele se torne mais tenso que o galho seguro entre os dedos. Então finja retesar desejo um pouco mais, para, de surpresa, tomar a fruta entre os lábios.

Pressione docemente a amora entre a língua e o palato, mas não a puxe, pois nem toda a delicadeza do mundo seria capaz de a preservá-la intacta. Prefira morder bem rente ao fruto o pequeno caule esverdeado que o prende, e não deixe de atentar para este único momento em que a violência dos dentes se faz milimetricamente precisa.

Porém, se o fruto infelizmente estiver fora do alcance da boca, deposite na mão esquerda todo o cuidado do mundo para tocar o fruto com a leveza de quem retira um harmônico das cordas de um cello. Pouse, então, a fruta sobre a palma, e sinta-a pulsar ao tingir-se, pois algum ferimento será inevitável e permanecerá por dias gravado nas mãos de quem ousou devassar tal fragilidade com instrumentos tão bruscos. Conduza lentamente o fruto à boca, como se ele fosse a mistura concreta da carne e do sangue de um deus morto.

Embeba a amora com um pouco de saliva, para libertar o aroma e aproveitar os pequenos derramamentos inevitáveis mesmo à mais cuidadosa investida. Traga à memória as lembranças de quantas vezes esse movimento foi repetido desde a infância.

Contenha arduamente a sedução de sorvê-la, aumentando a pressão somente ao ponto necessário para que escorra com vagar o suco entre as papilas, prolongando ao infinito o pequeno instante em que se pode conjugar o aroma ao gosto. Para não ofender a carne com os dentes, na esperança vã de extrair um resto de mosto da fruta fazia, engula o que sobrou.

Misture, por fim, o sabor real à sensações lembradas, convertendo em memória presente o gozo prestes a dissipar-se. E de modo algum se esqueça de que o único lugar em que a doçura da amora se guarda é na memória, pois, como os beijos, as amoras são um verbo que apenas no presente se conjuga.



Friday, October 07, 2005

Instruções para embalsamar esperanças



Modele uma desejo à imagem das esperanças mais improváveis que puder imaginar. Deixe que ele cresça e te preencha o dia com a expectativa sorridente de ver realizadas as imagens que tens na cabeça. Imaginará silhuetas indefinidas, claro, mais prefigurando sentimentos que situações, mas isso é normal porque a expectativa não é de fatos, mas das emoções que eles certamente vão desencadear. Um certamente imaginário, também claro seja, mas sentimentos são tão reais quando no mundo quanto na memória ou na fantasia...

E quando a pele desse desejo que se infla por dentro encontrar suas paredes interiores e espalhar-se por todo o vazio que você tem em si, então saberá que por este sonho vale viver. A felicidade desta consciência, como o calor de línguas prestes a se tocar, dilatará o desejo em pulsações ritmadas, que te pressionarão por dentro expulsando pelos poros tudo o que em si não está preso por raízes enlaçadas entre músculos e tendões. Do si que conhece talvez pouco restará, mas não faz mal, porque ninguém quer ter aquilo que ocupa em si o lugar do prazer.

As pulsações causam uma dor cortante, mas esse é um sofrer acompanhado de tanta alegria antecipada que quase deseja explodir para preencher o mundo inteiro com todo o seu sentimento. Mas esse é um falso desejo, porque quer mesmo é ser inteiro para viver completamente a felicidade imaginada.

Certa hora, a pressão é tão grande que começa a desaguar no mundo pelos olhares e contorcer os músculos na forma de um sorriso constante. Comece, então, a flutuar, crendo que a paixão eleva e esquecendo que cultivara dentro de si um balão: este vazio é que se ergue, e faz ver além nuvens um sol que para poucos brilha.

Olhe, então, para baixo, e veja que a terra lhe recusa a esperança, sob o peso imenso do silêncio que afirma a palavra não. O desejo sempre insistirá, mesmo perdido o seu porto e sem saber para onde ir. Quererá inflar-se, não tem como, para morrer numa explosão de revolta. Mas depois murchará até tornar-se um saco frouxo jogado num canto de si.

É quase inevitável: você o tomará nos braços e soprará sua boca em um esforço desesperado para enchê-lo novamente e preencher o vazio que ele deixou em seu lugar. Mas o vazio que te ergueu agora se torna ausência, e embora saiba que ele nunca voltará a envolver-te por dentro, sabe também que aquela alegre pulsação ainda será sentida por muito tempo, como a fantasmagórica dor dos amputados.




Monday, October 03, 2005

Primavera


Na grama seca que deseja a chuva como a ti desejo, caem sobre mim as primeiras gotas da primavera. Cada pingo é passo teu em minha volta, mas meu olhar só percebe o vazio.

A noite muda, a noite muda como meus olhos úmidos de desespero e revolta. Antes pensei que te vi, do alto da varanda, entrando em minha rua, vestida de branco e olhando com vagar tudo ao redor. Depois pensei que era apenas um fantasma do meu desejo, que tanto queria que fossem seus os passos desta mulher que chega... mas ela passa olhando o horizonte e sorrindo para suas próprias lembranças.

E não poderiam deixar de trazer maus presságios essas chuvas que levam consigo as flores de ipê. E eu, inocente, nunca me tinha dado por isso, até que elas te levassem junto também.

Uma amoreira perdida. Uma lua encoberta. Mil formigas que formam um rio que passa ao largo de mim. O som dos grilos e das folhas secas tombando ao vento. E eu que nem saber sei onde moras, me aproximo da luz acesa par encontrar o guardião de sonhos, mas as sombras que vejo não são suas.

Os ventos, os ventos, os ventos... algum vento azul virá me socorrer? Mas apenas ventos de umidade cinza encobrem a lua e seus olhos, espalhando desencontro e tristeza em seu caminho.

Hoje, porém, vejo que fui injusto. Todos sabem que a chuva da primavera não traz a melancolia, mas a beleza. Mas ela precisa primeiro lavar o mundo, varrendo com seus ventos as tristezas invernais, às quais só resta deixar-se arrastar como folha ao vento e picar pela última vez aos que se encontram ainda na zona cinzenta entre as estações.

Infelizmente elas me encontraram em minha espera e souberam desviar nossos caminhos. Mas eles ainda se encontrarão, pois, se a vela segue o vento, é o desejo que o barco segue.

Réquiem



Esgotado, o amor é uma flor velha e inútil,

que ao sugerir à lembrança a beleza passada,

faz sentir presente a dor da ausência

e a certeza de que ela vale a pena,

pois nenhum futuro cinzento é capaz

de ofuscar a luz de um amor que em seu tempo

soube encher de sentido

a existência estúpida e gratuita

que nos reserva esse mundo.