Os ventos amarelos e os ventos mudos
Os amarelos são ventos longevos, chegando mesmo a haver quem diga que no deserto de Atacama existe um velho que nasceu antes dos primeiros homens. Porém, a maior parte dos ventos ainda vivos tem menos de dez mil anos, então sempre acompanharam as reviravolteantes historias desses seres tormentosos que somos nós.
Por isso, os ventos amarelos voam alto, mas raramente tanto que nos percam de vista, pois estão sempre atentos às variadas vozes que preenchem suas longas vidas com novidades incessantes de amores, de guerras e de mortes. Todas essas histórias eles a guardam como palavras em sua memória infinita.
Dizem mesmo que a biblioteca de Babel, descrita um dia por Borges, era a memória do velho vento do Atacama. E, como essa versão foi negada pelo próprio autor, talvez ela seja até verdadeira.
Os amarelos, como Borges ao fim da vida, são ventos da palavra, mais que da visão. Tanto que, para ver com acuidade, eles precisam descer da linha das nuvens para as copas das árvores, de onde por vezes chegam a falar com alguns humanos. Mas isso é raro, pois normalmente eles pairam muito acima de nós, com seus muitos ouvidos poderosos e atentos.
Uma das proezas de sua audição é que eles podem ouvir mil histórias ao mesmo tempo e compreender todas como se fossem uma só. Seus ouvidos polifônicos são legendários, mas os verdes contam que um velho amarelo do norte, ao visitar Paris pela primeira vez, enlouqueceu ao tentar ouvi-la toda de uma vez, como alguém que engole o mar. E, previsivelmente, completam a história dizendo que não deve ter sido o único, pois muitos são os amarelos tidos como excêntricos.
Há também quem ponha a culpa das suas estranhezas na proximidade do sol, que os amarelos até hoje chamam de pai. Todavia, por mais alto que voem, eles são ventos subnúbicos, pois quase sempre andam abaixo das linhas das nuvens, para que elas não lhes atrapalhem a pouca vista que eles têm do solo e de seus habitantes. Inclusive, eles freqüentemente pressionam as nuvens para cima, para ganhar um pouco mais de espaço, o que gera algumas cumulus nimbus de forma peculiar, que os cientistas em vão tentam enquadrar em suas teorias.
Acima das nuvens, outros são os ventos que costumam voar, mas eles parecem se interessar muito pouco pelo pulsar da vida, pois nunca falam com os humanos nem com ventos pouco longevos. Alguns, inclusive, andam sempre por cima dos mares de nuvens que circundam as grandes cordilheiras, descansando apenas nos pequenos cumes, ilhas de negror ou de neve que se elevam sobre o teto do mundo.
Porém, mais alto que todos os ventos supernúbicos, andam os cinco ventos mudos, alcunha equívoca que lhes foi dada por alguns azuis indignados por não terem obtido resposta após subirem tão alto para perguntar-lhes de uma velha história perdida da memória até mesmo dos amarelos mais antigos. Porém, o título foi tão bem recebido que todos os conhecem como mudos e muitos pensam que eles realmente o são. Reclamar disso, eles nunca o fizeram, ou pelo menos ninguém disso tem notícia, embora esse pareça mais um signo de indiferença que de aceitação.
De toda forma, em sua própria linguagem eles se chamam de ventos antigos (embora os azuis os chamassem simplesmente de velhos, antes da história da mudez). Eles nunca conheceram a morte nem ouvem dos animais senão os ecos que ouvem das histórias que os amarelos contam entre si. Voam eles tão alto que cada ser vivo se mistura ao ambiente, e dali apenas se apercebem dos grandes movimentos. Não vêem plantas, mas pastos e florestas. Não conhecem as pedras, mas as montanhas. Conversam em línguas secretas com cordilheiras e oceanos, que os azuis nem sabem que falam, pois conhecem apenas a as linguagens dos mares, dos lagos e das montanhas.
Assim, os mudos observam o mundo do lugar da distancia, em que o espaço de cada individuo se perde. Muito pouco são esses ventos, e lentamente eles andam... Os azuis (que nunca se cansam de inventar histórias sobre os antigos) espalharam a versão de que eles andam devagar porque são muito velhos. Porém, no fundo, eles andam assim porque seu tempo é outro. Eles vivem no tempo dos movimentos tectônicos, das grandes mudanças, dos continentes rompidos, das ilhas criadas e dos mares que viram desertos.
Apesar da velocidade pouca, eles são tão grandes que dentro de si carregam movimentos variados, e os ventos das alturas às vezes percebem os pensamentos dos ventos antigos, e nisso vêm signos de mudanças de grandes proporções.
Eles pensam lentamente, falam muito pouco, e observam agudamente os movimentos gigantescos que só se vê em grande escala. Acerca dos homens, só passaram a estar atentos quando recentemente perceberam que eles mudam muito a face do mundo com suas construções. Desde então, eles olham as grandes cidades e algumas construções monumentais com um especial cuidado, embora esse fenômeno seja tão recente que eles ainda nem sabem se vai durar tempo suficiente para alterar de verdade os movimentos da terra.
Com essa distância abissal, os homens terminaram confundindo os antigos com os deuses e se tentaram fazer ouvir pelos ventos velhos, que passam indiferentes pelo tempo, que não vêem cada homem em separado, e que nunca escutam seus chamados. Eles sequer perceberam os quantos sacrifícios que lhe foram feitos, e seguem seu caminho como sempre, vagarosos e infinitos como se deuses fossem de verdade.
Apenas cinco são os velhos, grandes como continentes, quase cegos (ao menos para as pequenas coisas), certamente muito surdos, mas poderosos como ninguém sequer imagina. Houve um tempo em que os próprios ventos os encaravam como divindades, especialmente os azuis, tão prontos a mistificar tudo o que encontram. E houve um tempo em que eles conversavam com alguns azuis especiais, chamados de mensageiros divinos.
Embora tudo isso tenha ocorrido antes dos próprios homens nascerem, as histórias dessa época se cristalizaram nas mitologias humanas, que construíram novas mitologias com os fragmentos que lhes chegaram pelos ventos mais próximos. O mito de Saturno devorando os filhos, por exemplo, deriva da verdadeira história da última grande guerra, que resultou no alheamento dos velhos em relação ao resto dos ventos, como uma forma de inventar um novo equilíbrio.
Grandes divindades do passado, eles estão por trás de várias das mistificações pentárias, especialmente com relação aos mundos maias, divididos em cinco partes, cada qual com a sua cor.
O grande vento Negro anda apenas pelas noites no hemisfério norte e ele é o que mais alto voa. Já se disse que ele era apaixonado pela lua, mas essa historia só e contada em velhas lendas quase perdidas mesmo na memória dos ventos amarelos.
O velho vento amarelo segue sempre o dia setentrional, e tira o seu nome da presença constante do sol.
O grande vento verde se estende como um anel em torno do equador.
O lento vento branco não se move de sobre a Antártida desde os tempos que se perderam na memória.
E o grande vento azul envolve o vento branco com um abraço que nenhum homem viu o começo.
Juntos, eles foram um manto invisível que envolve o mundo inteiro. Acima deles, nenhum vento jamais voou. Exceto, claro, pelo célebre Dédalo e por seu filho Ícaro, cuja paixão desmedida desencadeou a última guerra dos ventos, em que o mundo ganhou sua atual face.








